História


O mundo em crise e a emigração italiana

O mundo estava em crise na segunda metade do século passado.
 
Na Itália, lutas políticas do processo de unificação e as mudanças no trabalho do campo com o desenvolvimento do capitalismo desempregavam milhares de pessoas: campesinos e artesãos. Essas duas forças desestruturaram famílias, que não mais conseguiam viver no seu país.

A Itália lutava pela sua unificação.

Vittorio Emanuele II, em 1861, foi proclamado rei da Itália, cuja capital passou de Turim para Florença,. 

Iniciou-se o processo de unificação fortalecendo o Reino Sardo-Piamontês. A Áustria, possuidora da Lombardia-Venécia, era o grande empecilho da unificação, como, também, o eram os Estados Italianos. 

A França, de Napoleão III, aliou-se ao Piemonte. A Áustria o atacou, perdendo a Lombardia, que foi entregue a Piemonte-Sardenha. A França recebeu, conforme o combinado, Nice e Sabóia. 

Mas continuaram os problemas para a unificação: a Áustria ainda dominava Veneza e Roma era propriedade do Papa. Negociações fracassavam. 

Em 1866, a Itália, unindo-se à Prússia, venceu a Áustria, anexando Veneza ao bloco italiano. 

Faltava Roma para consolidar a unificação da Itália. O governo italiano não conseguiu o desejado acordo com a Igreja, impedido pela má vontade do cardeal Antonelli. Com a retirada das tropas de Napoleão III de Roma, que impediam sua unificação ao Reino Italiano, o exército chefiado por Raffaele Codorna entrou em Roma, em 20 de setembro de 1870, conquistando-a. A bandeira branca foi içada na cúpula de São Pedro. Conquistada, Roma foi transformada na nova capital do Reino da Itália. 

Consolidou-se a vitória de Vittorio Emmanuele II sobre Pio IX.

Com a morte do rei Vittorio Emanuele II, em janeiro de 1878, assume o poder o Rei Umberto I, assassinado em 1900, sendo substituído pelo rei Vittorio Emanuele III. 

Em 1919, anexaram-se à Itália, já quase unificada, o Trentino, Trieste e Ístria e, em 1929, as Costas Dálmatas. 
As pendências entre o reino italiano e a Igreja continuaram. A criação do Estado do Vaticano, em 1929, foi a solução para os inúmeros impasses. 

A outra força que expulsou os trabalhadores rurais foi o capitalismo. Invadiu o campo, com ricos proprietários, possuindo grandes extensões de terra, como os criadores de carneiros interessados em vender a lã às iniciantes indústrias. Os camponeses não-assalariados, que viviam uma relação de trabalho semi-feudal, cultivando a plantação de subsistência no seu pedaço de terra, com inexpressivo e quase inexistente comércio, foram expulsos do campo, superlotando as cidades, sem encontrar trabalho.

Com o capitalismo, a partir da segunda metade do século 19, o mercado cresceu, com ferrovias, túneis, fábricas, novas técnicas. Multidões de italianos, principalmente os do sul da Itália, desempregados, conheceram o desamparo, a miséria e a fome, agravados, ainda mais, com o crescimento industrial do Norte, que levou à falência as pequenas indústrias e manufaturas sulistas.... 
Na Itália, quase não havia trabalho. 

No Brasil, com o café em expansão, e a escravidão em declínio, faltava mão-de-obra. A emigração foi a opção para resolver os dois problemas.

A crise italiana só foi amenizada com o término da 2ª Guerra Mundial, a partir de 1945.

A letra de uma canção popular retratou aquela situação : “L’Italia è piccolina c’`e gente in quantità e questa è la rovina che non si può campà e tutti vogliano andare in America per guadagnare il pane per il babbo e per mammà.”, cuja tradução, sem rima e sem ritmo, é esta: “A Itália é pequenina e tem gente em quantidade e esta é a ruína, pois não se pode viver; e todos querem ir à América para ganhar o pão para papai e mamãe.” 

Um acordo, “Imigração Gratuita”, firmado entre os governos italiano e brasileiro, distribuía obrigações: o italiano selecionava a mão-de-obra e o brasileiro custeava a viagem e a distribuição dos imigrantes em seus empregos. 
“Os camponeses arruinados formavam o maior contingente da emigração, embora houvesse muitos operários, artesãos, pequenos comerciantes e até mesmo um industrial ou homem de negócios”.

Quando partia um contingente de trabalhadores para o Brasil, ouvia-se este canto:

“Noi, italiani lavoratori, / Allegri andiamo nel Brasile, / E voi altri, d’Italia signori / Lavoratelo il vostro badile / Se volete mangiare”. Traduzindo: (“Nós, italianos trabalhadores, / Alegres partimos para o Brasil, / E vós que ficais, da Itália senhores / Trabalhai empunhando a enxada / Se quereis comer”).

Ouvia-se, também, este trecho de uma canção de despedida: “Andiamo in’ Merica. / Andiamo a raccogliere caffè. / Andiamo in’Merica” (...).

Mas nem todos partiam. A rigorosa inspeção, feita por um médico, na Agência de Emigração, barrava os fracos e os doentes. 

Ao chegar a Santos, todos eram recolhidos à Inspetoria da Imigração e encaminhados para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo.

A Hospedaria era o mercado de mão-de-obra. Muitos fazendeiros visitavam pessoalmente os recém-chegados, procurando trabalhadores, ou enviavam seus emissários, que falavam a língua dos estrangeiros.

Para amenizar a situação dos imigrantes recém-chegados, surgiram instituições de ajuda, como a “Sociedade de Mútuo Socorro Galileu Galilei”.

Para auxiliar o imigrante e encaminhar suas queixas ao Comissariado da Emigração, órgão do governo italiano, criou-se o “Instituto do Patronato”.

Quando em 1902, muitas queixas denunciavam fazendeiros de São Paulo, que submetiam seus colonos à violência e ao regime escravista, foi proibida a emigração italiana durante alguns anos. Em 1904, o Comissariado da Emigração, através de um artigo “Gli Orrori del Brasile”, na “La Gazetta Coloniale”, de Nápoles, fazia um alerta à população italiana quanto ao desumano tratamento nas fazendas de café do Brasil.

Na realidade, as relações de trabalho entre patrões e empregados estavam marcadas pela violência do escravismo, levando fazendeiros a proclamarem serem seus colonos “seus escravos brancos”. Essa violenta relação de produção provocou a volta de, aproximadamente, 40% dos imigrantes aos seus países de origem, depois de alguns anos de trabalho no Brasil.

A chegada dos italianos no Brasil e em São José do Rio PardoNo Brasil, desenvolvia-se a economia cafeeira. Quando, em 1850, foi proibido o tráfico de escravos, surgiram problemas com a falta de mão-de-obra. A produção cafeeira aumentava e se expandia pelo interior. As cidades cresciam, com fábricas, bancos, estradas de ferro...

Já, em 1847, desembarcaram os primeiros imigrantes alemães e suíços, que foram trabalhar na região de Limeira. Chegavam, também, portugueses, espanhóis, italianos. 

Em 1874, vinte mil imigrantes desembarcaram no Brasil, e, em 1888, mais de 200.000 italianos juntaram-se às centenas aos que aqui já estavam. 

Não existem dados concretos da chegada dos italianos a nossa região. Em São José do Rio Pardo, eles já estavam, certamente, no final dos anos 70 do século vinte, pois o livro de batismo da Matriz registra, em 8 de outubro de 1881, o primeiro nascimento de um filho de imigrantes italianos: Giacomo, filho de Leonardo Define e Antonia Damasco.

O primeiro casamento de italianos em São José só aconteceu em 16 de abril de 1887. Casou-se Thomaz Maria Potenço com Domingas Labasca, “ambos súditos italianos, naturais de Monte Murro”. Ele, filho de Domingos Potenço e Camilla Mangini; ela, de Vicente Labasca e Hortença Rinaldi. Os padrinhos foram Vicente Define e Antônio Cândido Ribeiro.

Quatro meses depois, em 6 de agosto de 1887, um italiano de Massa Carrara casava-se com uma brasileira de Lorena, Anna Maria da Conceição. Testemunharam o sacramento: Dr. Antônio Cândido Rodrigues e Atílio Colli.
Também era da família Define o primeiro óbito de italiano, ocorrido em 23 de agosto de 1887: Domingos Define, casado com Maria Rosa.

A mortalidade infantil em 1888, indiscriminada, atingindo dezenas e dezenas de filhos de italianos e de brasileiros, era assustadora. Os registros de óbito assinalam os patrões dos pais. 
Os sobrenomes italianos nos livros de registros da Matriz, com grafias incorretas, num crescendo, apareceram a partir de 1885.



Notícias poucas e lacônicasAs notícias da chegada e dos feitos de imigrantes italianos em São José, no final do século XIX e início do XX, são poucas e lacônicas.

O jornalzinho O Mosquito, número 2, de 28 de novembro de 1887, assim comenta o fato: “Imigrantes. / Chegaram dia 23 do corrente, com destino à fazenda do nosso amigo Tenente Coronel Antônio Marçal Nogueira de Barros, 28 imigrantes italianos”.

O Almanaque de São José do Rio Pardo, de 1887, registra: “Sociedade Italiana / Os imigrantes italianos continuam a chegar; a maior parte das famílias destina-se à lavoura, mas muitos italianos estabeleceram-se na Vila com artesanato, oficinas e pequenos negócios e já se integram à comunidade rio-pardense. / A Sociedade de Mútuo Socorro XX de Setembro, fundada por 50 sócios, tem por finalidade proteger os interesses dos colonos residentes e incentivar, na Itália, a vinda de mais imigrantes; mantém uma programação social e cultural, aceitando, também, associados brasileiros. / A sua diretoria está assim constituída: presidente: Francisco Antônio Paolielo; 1º secretário: João Del Guerra; 2º secretário: Rodolfo Del Guerra; secretário para a língua portuguesa: Adolfo Paolielo.”. 

Sobre a finalidade de “incentivar, na Itália, a vinda de mais imigrantes”, temos a história do italiano Augusto Tiezzi que, depois de vender seu “armazém da Fazenda da Serra”, comprou um pedaço de terra no caminho da Tubaca: o Sítio da Laje, adquirindo, mais tarde, terras de café, além do pontilhão da Mojiana. 

Entusiasmado com o Brasil, Augusto voltou à Itália, trazendo consigo cinco famílias de amigos, que com ele trabalharam na roça. Entre as cinco, vieram as famílias Mazzer, a do primo Salvadori e a Batistella. 
Tiezzi montou o “Alambique da Laje”, que forneceu muita aguardente para toda a região, muitas vezes entregue em carro de boi.

Nos anos 20, o “Sítio da Laje” foi vendido ao primo Salvadori. Os Tiezzis foram morar no Bairro Euclides da Cunha (hoje, Santo Antônio), aplicando parte do seu capital em imóveis. Sobre “Imigração para o Brasil”, o jornal O Estado de S. Paulo, de 20 de agosto de 1891, comentou: “O Times, de Londres, publicou no seu número de ante-hontem, um violento editorial contra a immigração para o Brasil. Diz que, segundo informações dadas pelos consules, é mau o tratamento que os immigrantes aqui recebem e aconselha os inglezes que não immigrem para o nosso paiz”.

O livro italiano Merica! Merica!, de Emílio Franzina, edição de 1979, reproduz uma carta (11/ 3/ 1889) do colono italiano Giuseppe Manzoni, natural de Feletto, Província de Treviso, que residiu numa fazenda em São José do Rio Pardo. Manzoni relata sua chegada a São Paulo, os acalorados movimentos republicanos, a rebelião na Hospedaria dos Imigrantes pelo inumano tratamento, as belezas rio-pardenses da paisagem do campo e das manifestações culturais, o arrependimento de ter emigrado...

Um trabalho do Dr. Honório de Sylos, Cidade Livre do Rio Pardo, publicado na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo”, nº XLVI, de 1946, relata o assentamento da pedra fundamental da sede da Sociedade 20 de Setembro, em 24 de junho de 1889 (cinco meses antes da Proclamação da República), que terminou com uma grande passeata republicana à noite. Tendo como fonte os jornais O Tiradentes, de São José do Rio Pardo (7 / 7 / 1889) e o Oeste de São Paulo, de Casa Branca (30 / 6 / 1889), ele descreve a gritaria, a correria e a troca de insultos entre republicanos e monarquistas.

Atílio Piovesan, em entrevista ao repórter de “Gazeta do Rio Pardo, publicada em 15 de agosto de 1939, cujo número, infelizmente, desapareceu da coleção, falou dos operários da ponte, na maioria italianos, “fortes e rijos, vendendo saúde”. Citou alguns: ele, que foi encarregado do vapor que movia a bomba centrífuga; Agostinho Rossi, o encarregado do serviço dos pedreiros; Torquato Colli, Guido Marchi, Mateus Volota, D’Andrea e Garibaldi Trecoli. Os dois últimos morreram afogados durante os trabalhos.


Manifestações ItalianasNo final do século 19, São José, com mais de 15.000 habitantes, tinha quase o mesmo número de brasileiros e italianos. E entre os estrangeiros, muitos artesãos, negociantes, artistas, construtores, intelectuais, doutores..., que deram um sopro de vida nova à cidadezinha, com belas lojas, construções arrojadas, escolas, espetáculos teatrais e musicais, idéias avançadas como o socialismo...

O trabalho artístico dos italianos 

Como exemplo, cito a construção da gótica primeira Matriz, quase totalmente edificada por italianos, no final do século 19, com uma só torre, projetada pelo famoso Ramos de Azevedo,  o mesmo que projetou o teatro municipal de São Paulo. A construção esteve a cargo de Felicio Maria Calvitti, dirigindo operários, quase todos italianos; o altar de madeira foi esculpido por Marino de Favero; os entalhes do púlpito, dos confessionários, balaústres e colunas foram de Salvador Artese; os belíssimos afrescos nas paredes e no forro, reproduzindo cenas bíblicas, anjos e santos, foram dos artistas Bruno Scarcelli, Domingos De Rocco, Giacomo Mommo...

O início da “Società”Em 1886, um grupo de 50 italianos formou uma sociedade para cuidar dos interesses dos colonos, seus conterrâneos, e protegê-los contra os desmandos e crueldades dos fazendeiros, dando-lhes assistência médica, alimentação quando necessário, fornecendo-lhes remédios, assistindo as viúvas, realizando enterros, mantendo uma escola noturna com aulas de italiano e música e incentivando, na Itália, a vinda de mais imigrantes. E, assim, surgiu, em agosto de 1886, a Società di Mutuo Soccorso 20 Settembre. 

No primeiro livro de atas da sociedade (1887 – 1895), 400 italianos estão registrados como sócios, quase todos residentes na cidade. Os colonos das fazendas não eram sócios, mas tinham a proteção da sociedade.

Outros, anarquistas e socialistas, que moravam na cidade, divergindo do ideário monarquista e conservador da Società 20 Settembre, não participaram da Società.

De italianos, foi a iniciativa da fundação de clubes socialistas na pequena São José.


MaçonariaDe italianos, aliados a muitos brasileiros liderados pelo Dr. Pedro Agapio de Aquino, foi a fundação da “Loja Maçônica União Universal nº 463”, em 24 de fevereiro de 1894. Ei-los: Francisco Cavagliano, José Scarano, Leonardo Jula, Luiz Botelli, Miguel Precioso, Miguel Santoro, Paschoal Santomauro, Tomas Rainelli, Vicente Saignani e Vicente Juliani.

Em outubro de 1896, a “Loja” comprou a casa do Sr. Luigi Prezzia, à Rua Américo de Campos, 7, próxima à Praça XV. No mesmo ano (1896), iniciou-se a construção da sede, com a colaboração pecuniária de muitos. Constam da relação, além dos acima citados, os maçons: Pompeu Cassi, José Prezzia, Angelo Privelatto, Amadeu Pardini, Agostino Lionne, Faustino Franceschini, Domingos Delia, Angelo Lacreta, Jacob Poli, Braz Florenzano, Cesario Trivelatto, José Mano, Alfredo Pinelli, Giovanni Del Guerra e Rodolfo Del Guerra.

Para a instalação da Loja, em 1897, outros nomes apareceram entre os muitos já citados: Luigi Braghetta, Vicente Faignani, Francesco Cavagliano.

A primeira sessão no novo templo aconteceu em 13 de novembro de 1897.

As primeiras irmãs de caridade italianas em São JoséAntes da inauguração da Santa Casa de Misericórdia, o jornal O Rio Pardo, de maio de 1913, divulgava que o bispo. D. Alberto José Gonçalves, de Ribeirão Preto, providenciara a vinda das irmàs de caridade para dirigir a Santa Casa. Eram freiras brasileiras “Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus”.

Na solene inauguração do Hospital de Misericórdia (hoje, Educandário São José), em 10 de junho de 1913, D. Alberto comprometeu-se a enviar as irmãs, que chegaram logo depois.

As “Apóstolas”, em São José, ficaram até 16 de junho de 1919, quando foram recolhidas pelo mesmo bispo, durante o rumoroso “Caso Paroquial”, iniciado com a remoção, em junho, do amado e polêmico Padre Euclides Carneiro. Este incidente entre o bispo e a “Comissão Popular”, que solicitava a permanência do pároco em São José, foi parar até nas páginas do jornalO Estado de São Paulo: “(...) chorando, as irmãs cumpriram as ordens superiores, deixando cerca de 40 doentes sem sua assistência”.

Durante três meses, São José do Rio Pardo ficou sem freiras, sem padre e com a igreja fechada.

Sei que as irmãs “Apóstolas” voltaram e devem ter ficado em São José até 1927.

Em 1928, Dr. Luiz Gonçalves Júnior, provedor da Santa Casa (o novo Hospital São Vicente já estava quase terminado), pediu socorro às autoridades eclesiásticas e seu clamor chegou à Itália. Em Roma, na Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário, sete religiosas ofereceram-se para o trabalho em São José do Rio Pardo, no Estado de São Paulo, Brasil: Maria Eugenia Mengani (superiora), Maria Liberata Isidori, Maria Clementina Fadda, Maria Vincenza Mango, Maria Eufrozina Luzzi e Maria Mercede Bernardi. Embarcaram em Nápoles, acompanhadas da Madre Maria Lutgarda Valle. São José foi a primeira cidade brasileira a “sentir a presença benfazeja das Filhas do Monte Calvário”. (Foto freiras pág. 25)

Dia 1º de fevereiro de 1928, o Sr. Gabriel Braghetta, representando o pároco e a população rio-pardense, recebeu as sete freiras no porto de Santos. Dia 2, à tarde, o pároco, Monsenhor Guilherme Arnold, autoridades e irmandades religiosas estavam na estação da Mojiana para dar as boas vindas e receber, carinhosamente, as primeiras freiras italianas que chegavam ao Brasil. Todos as acompanharam até à Santa Casa... 

Há anos, o Centro Cultural Ítalo-Brasileiro recebeu da Delegacia de Polícia centenas de fichas de estrangeiros emitidas durante a 2ª Grande Guerra. Vinte e três eram de freiras italianas que trabalhavam no Hospital ou no Orfanato, com seus nomes originais: Carmela di Trini, chegada em 1931; em 1934 chegaram: Nicoletta de Palo, Maria Grazia Pilato, Cozenza Arcangelina. Em 1935, desembarcaram: Cecilia Lupi, Vittoria Pescosolido, Giulia Cristofari, Maria Rita Farris, Virginia de Gasparis, Ana Iurilli, Chiara Antonietta Possonato, Anna Marteli, Lucia Molinari, Italia Maria Rizzo, Rosa Zucalli. Em 1937: Maria Rossi, Giovanina Burbo. Em 1939 chegaram Alite Nunzia, Atzera Agnesi, Cesira Facaro e em 1946, Maria Mazzoni, Pasqua Zanetti e Caterina Baggio.

Há 71 anos (1928-1999), as irmãs da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário prestam um serviço relevante a São José do Rio Pardo.

Os primeiros padres italianos em São José Quando os três monges cistercienses chegaram a São José do Rio Pardo, em 1949, era capelão do Hospital e Orfanato, há oito anos, o Padre Paulo Raucci (1880 -1953), também italiano.

Dom Nivardo Fontemaggi, D. Andre Montecchi e D. Bernardo Biagiolli, da ordem cisterciense, chegaram a São José do Rio Pardo acompanhados de D. Atanasio Merckle, abade de Itaporanga, às 17h30, do dia 18 de junho de 1949. 
De 1949 a 1964, outros monges italianos, da mesma congregação, juntaram-se aos primeiros em terras rio-pardenses: Bonifacio Cicconofre, Giuliano Battisti, Guerrico Marinelli, Mario Della Zana, Guido Salvatori, Agostino Zachetti, Umberto Deperte e Eugenio Zenobi...

Società di Mutuo Soccorso 20 Settembre

Terreno e a primeira sede socialAs reuniões da sociedade funcionavam na casa alugada do Sr. Gaetano Troccoli, que pediu, logo depois, um aluguel de 240 mil-réis anuais, valor considerado muito elevado, ou a desocupação do prédio. Troccoli ofereceu à sociedade, gratuitamente, um quarto para as reuniões, por dois meses, sendo aceita a proposta. (...) Em 1887, já evidenciava a preocupação dos sócios em ter a sua sede própria. Comentava-se a venda do terreno que a Câmara faria à Sociedade. 

Em setembro de 1888, o presidente da Società, Leonardo Define, novamente autorizado pela assembléia, oficiou à Câmara Municipal, reivindicando um terreno, como abaixo transcrevo: 
“Ilmo Sr. Presidente e Vereadores da Câmara. 

Eu Leonardo Define na qualidade de Presidente da sociedade beneficiência italiana, que tendo esta sociedade precisão de construir um prédio para melhor funcionar a Assembléia da referida sociedade, vem o suplicante respeitosamente requerer a esta Illma. 

Câmara lhe conceder o terreno que se acha devoluto na Rua Treze de Maio esquina da Rua da Imperatriz. Nestes termos requer e pede que lhe conceda o terreno todo que sobra dos termos do Cap. Antônio Corrêa de Souza por causa do edifício precisar de terreno mais que os 60 palmos do estilo. (...)”
A Comissão de Obras doou “na forma da lei 13m e 20 de frente com o fundo correspondente ao fundo do quarteirão”. (...) E a primeira sede foi construída e com grande festa inaugurada no final do século 19. 

SocialistasMuitos imigrantes italianos, anarquistas e socialistas, escolheram São José do Rio Pardo como sua segunda terra-mãe. Contestadores, por princípios ideológicos, não participavam da Società di Mutuo Soccorso 20 Settembre. Pregavam a favor da democracia, da liberdade, da fraternidade, da igualdade social e contra as forças monárquicas e reacionárias. Criaram problemas a fazendeiros e autoridades. Criticaram e foram duramente criticados. Suas instituições tiveram vida efêmera.. 

Maus tratosSobre maus tratos, há muitos registros nas atas do primeiro livro da Società, como os abaixo citados.
(...) “23 de janeiro de 1889. Vinte colonos da fazenda do Sr. Vicente Augusto Sylos Lima reclamaram dos maus tratos aos empregados e às suas famílias. Deliberou-se “fazer chamar o patrão e seu administrador para discutir a reclamação”. Os três nomes escolhidos para essa conversação foram: Leonardo Deffine, Giuseppe Scarano e Luigi Prezzia.

30 de julho de 1890. Apresentaram-se 20 colonos da fazenda do Sr. Antônio Marçal, entregando um ofício ao presidente, declarando que o citado patrão não estava cumprindo o trato firmado entre as partes: não ouvia os colonos e não lhes dava satisfações. “Sendo o Sr. Antônio Marçal vice-presidente honorário desta sociedade, e os colonos todos cidadãos italianos, a Assembéia decide oficiar ao Sr. Marçal e conhecer os motivos da reclamação”.
Em 27 de maio de 1900, o jornal O Rio Pardo, na sua manchete publicava: um fazendeiro manda atacar por capangas a facão colonos seus na roça onde estavam trabalhando”. (...)

Partido Fascista em São José do Rio Pardo, o Partido Fascista foi fundado em 11 de agosto de 1927. Quatro dias depois, em 15 de agosto, o jornal “Resenha” registrava a grande festa da bênção do “Gagliardeto” (estandarte), da seção fascista desta cidade. A bênção realizou-se às 16 horas, na porta da Matriz.

“Foi uma cerimônia imponente pela numerosa assistência que testemunhou o ato religioso oficiado pelo bispo D. Alberto, que proferiu algumas palavras sobre a formação fascista e rendeu homenagem ao atual governo italiano. Ato contínuo, uma procissão, seguida de grande massa popular, dirigiu-se ao edifício da antiga sede do Clube Recreativo, cujos salões estavam engalanados com bandeiras do Brasil e da Itália.” (...)

Nova sedeO “Progetto per la Sede del Partito Nazionale Fascista – Sezione de São José do Rio Pardo” foi assinado pelo engenheiro Luigi Munaro: um prédio suntuoso. A aprovação pelos sócios foi unânime.

Demoliu-se a segunda sede. A pedra fundamental do novo edifício foi lançada em 15 de janeiro de 1928, com grande público: autoridades civis, militares, eclesiásticas, italianos fascistas e não-fascistas e suas famílias, imigrantes de outras nacionalidades e brasileiros...

Dezesseis meses depois, em 26 de maio de 1929, com muita pompa e com as presenças do cônsul da Italia em São Paulo, Sr. Serafino Mazzolini, o bispo de Ribeirão Preto, D. Alberto Gonçalves, autoridades, convidados e povo, a nova, “magnífica e suntuosa” sede, que é o mesmo prédio atual, foi inaugurada. A inauguração movimentou a cidade, com centenas de visitantes de clubes fascistas de outras cidades. O cortejo, com bandeiras e acompanhado das bandas, percorreu as ruas artisticamente decoradas com bandeiras brasileiras e italianas.

O ato inaugural reuniu centenas de pessoas no salão nobre do “Fascio”. Ao entardecer, um requintado banquete realizou-se no Hotel Brasil e, às 21 horas, o grande baile de gala.

 

A Guerra e os italianos em São JoséEm 1942, o governo restringiu as atividades de cidadãos italianos, alemães e japoneses, responsabilizando-os pelas indenizações de guerra. Eis um trecho do decreto: “(...) considerando que tais atos constituem uma agressão não provocada (...) decreta que os bens e direitos dos súditos alemães, japoneses e italianos, pessoas físicas e jurídicas, respondam pelo prejuízo (...)”

 

Em São José foi confiscada, também, a sede do “Fasci Italiani del’Estero”... A polícia confiscou aparelhos de rádio... O senhor Giuseppe Liberalli conseguiu esconder o primeiro livro da “Società”, uma preciosidade para pesquisadores... Os feixes de varas, símbolo do fascismo, que decoravam o prédio externamente, foram demolidos, esquecendo-se dos feixes do forro do salão nobre... A guerra terminou em setembro de 1945.

Cine Teatro Colombo

Em 1936, com grandes festas, foi inaugurado o Cine Teatro Colombo, que completou o magnífico conjunto arquitetônico. (cine Colombo)


Nova denominaçãoA sede da Casa D’ Ítalia, depois de abrigar a Coletoria Federal e a Radio Difusora ZYD-6 durante o confisco, em 17 de dezembro de 1962, teve nova denominação: “Centro Cultural Ítalo-Brasileiro”. Ficou inativa de 1964 a 1969. Voltou à atividade em 1975, com 54 sócios. 

Em 1982, com a saída da Difusora, o prédio passou por grande e cuidadosa reforma, retomando suas características originais, sendo um dos orgulhos dos rio-pardenses. Hoje, o “Centro” promove reuniões e sessões artísticas a seus associados, jantares nas datas festivas, cursos de Italiano e orienta interessados na obtenção da cidadania italiana. 

Monumento de pedraEm 1903, terminada a desastrosa epidemia de febre amarela, a sociedade italiana construiu um monumento de pedra, no cemitério municipal, em homenagem às vítimas do flagelo. O jornal O Rio Pardo comentou a romaria:
“No Dia de Finados (2-11-1903), realizou-se a romaria organizada pelas Sociedades Italianas Reunidas em homenagem às vítimas da febre amarela. Às 10 horas, reuniram-se no largo da matriz grande massa popular e corporações com seus estandartes: Sociedades Italianas Reunidas, Filhos do Trabalho, Primeiro de Maio e Austro-Húngara, de São José, e Nuova Italia e Circolo Socialista, de Mococa. Eram mais de quinhentas pessoas, que formaram o préstito em direção ao Cemitério, acompanhado pelas bandas Giuseppe Garibaldi, Giuseppe Verdi, Riopardense e Filarmônica Mocoquense. Nos fundos do Cemitério, onde se acha erguido simbólico monumento comemorativo às vítimas da febre amarela, fizeram-se ouvir discursos e as bandas”.

                  

Presidentes da Società di Mutuo Soccorso 20 Settembre ao Centro Cultural Ítalo Brasileiro, citados em atas e nos jornais rio-pardenses (1887 a 1999).

Francesco Paoliello (1887)
Leonardo Define (1887)
Giuseppe Scarano (1889)
Arsênio Pessolano (1896, da “Società Italiana Nuova Roma”)
Luigi Pucci (1902)
Michele Santoro (1903)
Lorenzo Mori (1907)
Francesco Dal Moro (1910)
Pietro Flora (1912)
Miguel Santoro (1914)
Carlos Bruno Puteri (1917)
Luiz Pucci ( 1922)
Cezare Mazini (1923)
Luiz Pucci (1924)
Dr. Adolfo Bacci (1927)
Pietro Perrella (1938)
Dr. Adolfo Bacci (1950)
Antonio de Rosa (1951)
Hermenegildo Landini (1962)
Antonio de Rosa (1975)
Natal Bortot (1978)
Jeremias Polachini (1980)
Francisco José Parisi Braghetta (2002 a 2005)
Caterina de Rosa Marcondes (2006 a 2009)

Por Rodolpho Jose Del Guerra